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quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

Proteína antiviral explica abortos e complicações em casos de zika

Estudo mostra que, em contato com vírus, células de defesa do corpo 'forçam' fetos a cometer 'suicídio celular'

Um novo estudo sugere que os efeitos prejudiciais da zika sobre os fetos surgem, ironicamente, da atividade de uma proteína destinada a manter os vírus longe. A proteína em questão é chamada de interferon, uma "ferramenta" usada pelo sistema imunológico para interferir na replicação de fungos, vírus, bactérias e células de tumores. Só que nem todos os seres humanos — nem todos os camundongos, que foram os objetos da pesquisa — possuem receptores para todos os tipos de interferons. Sem esses receptores no organismo, as proteínas não conseguem agir para combater os vírus e outras doenças.

O curioso é que, na pesquisa, quando camundongos foram expostos ao vírus da zika antes do nascimento, os fetos que tinham esse tipo de receptor cometeram "suicídio celular", enquanto os que não tinham continuaram a se desenvolver bem. O trabalho foi publicado nesta sexta-feira na revista "Science Immunology".

A autora do estudo, Akiko Iwasaki, explica que o receptor de interferons age como um ponto de controle durante a gravidez. Se o receptor detecta interferons, ele pode sinalizar as moléculas, que matam o feto em resposta. Então, os resultados do estudo sugerem que a resposta do hospedeiro (no caso, o camundongo) ao vírus é o que de fato encerra a gravidez — e não o próprio vírus. Quando o aborto não acontece, esse mecanismo prejudica gravemente o desenvolvimento do feto.

— Os interferons são um dos fatores antivirais mais potentes que o corpo gera — diz Akiko, que é pesquisadora do Instituto Médico Howard Hughes e imunologista da Universidade Yale, nos EUA. — Quando o corpo detecta um vírus, as células liberam interferons, que montam uma rápida defesa imunológica. Estudos anteriores mostraram que camundongos adultos que não possuem o receptor que se liga a dois tipos de interferões, o interferon-a e o interferon-β, são altamente suscetíveis ao vírus da zika. Mas o efeito do receptor em fetos infectados era até agora desconhecido.

ENTENDA O ESTUDO

Para realizar a pesquisa, a imunologista Akiko Iwasaki acasalou camundongos fêmeas que não tinham o receptor com machos que tinham somente uma cópia dele. As fêmeas grávidas foram então infectadas com a zika. Cada uma delas carregava uma mistura de fetos: alguns tinham, e outros não tinham o receptor. Portanto, eles puderam ser comparados.

Fetos sem o receptor apresentaram níveis mais altos de vírus do que aqueles com o receptor. Isso faz sentido, diz Akiko, porque, quando o receptor está ausente, não há efeito antiviral.

— (Sem o receptor) O vírus pode replicar sem qualquer controle — destaca ela.

Entretanto, fetos com o receptor foram abortados logo no início da gravidez, constatou a pesquisadora. E uma série de mudanças estruturais e moleculares foi encontrada neles: placentas com vasos sanguíneos subdesenvolvidos; uma barreira anormal entre a mãe e as células do feto; e evidências de estresse celular.

O que revela a pesquisa
Defesa do corpo mata fetos quando há contato com a zika

O estudo mostrou que fetos de camundongos que têm, em suas células, receptores de interferons morrem porque a atuação dessas proteínas contra a zika é tão intensa que provoca um ‘suicídio celular’

A equipe de Akiko Iwasaki ainda não pode afirmar se o mesmo mecanismo ocorre em fetos humanos infectados com zika. Mas os pesquisadores fizeram testes para ver como os interferons afetam a gravidez humana. Em colaboração com o grupo da Carolyn Coyne da Universidade de Pittsburgh, os cientistas que trabalham com Akiko testaram o impacto dessas proteínas na placenta humana.

Quando exposto ao interferon-β, que normalmente não está presente em uma gravidez saudável, o tecido placentário humano desenvolveu estruturas anormais de nó. Estudos anteriores ligaram essas estruturas a gestações de alto risco. Logo, os pesquisadores especulam que a resposta "atrapalhada" dos interferons à infecção por zika esteja ligada aos resultados adversos da gravidez em seres humanos.

DESCOBERTA AJUDA TAMBÉM QUEM TEM DOENÇAS AUTOIMUNES

Agora, Akiko Iwasaki quer estudar os níveis de interferons em diferentes períodos durante a gravidez, o que poderia fornecer indícios de como surgem a microcefalia e outros graves problemas de saúde associados ao zika.

A pesquisadora ressalta que os resultados do estudo não se restringem ao vírus da zika: os interferons também podem causar complicações na gravidez em casos de infecção por rubéola, toxoplasmose, herpes e outros.

— Estamos realmente ansiosos para ver se o mesmo tipo de mecanismo está envolvido também nessas infecções — diz a imunologista.

Esta descoberta tem, ainda, implicações clínicas que vão além dos vírus, observa Akiko. Mulheres com doenças autoimunes, como o lúpus, têm níveis mais altos de interferons de tipo I. Elas também têm dificuldade com gestações.

— Se pudéssemos prevenir ou tratar a resposta do interferon em mulheres com essas doenças, a gravidez delas poderia se tornar mais tranquila — aspira a pesquisadora.

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Fonte: O Globo

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