portalpatos
publicidade
quarta-feira, 19 de setembro de 2018
CIDADE - 09/03/2018

Pela passagem do "Dia Internacional da Mulher": A história de superação da tenente PM Raquel Morais

Nem a distância da família, muito menos um pé quebrado, foi capaz de tirar o sonho da tenente Raquel Morais, de se tornar uma policial militar de Alagoas. Nascida em Patos, interior da Paraíba, a militar ingressou na PM com 28 anos, carregando em sua bagagem três pós-graduações, sendo duas na área de Enfermagem e outra na área do Direito.

Hoje com 32 anos e grávida de um bebê de três meses, está casada com o soldado Guilherme de Freitas, ambos pertencentes ao 2º Batalhão de Polícia Militar (BPM), localizado em União dos Palmares.

Ao longo dos três anos de curso, Raquel passou por inúmeros desafios. Chegou ao CFO com o pé direito quebrado, e como não possuía familiares em Alagoas, teve que morar na própria Academia de Polícia Senador Arnon de Mello, onde necessitou do apoio dos seus companheiros.

Neste Dia Internacional da Mulher, a Polícia Militar de Alagoas conta a brilhante história de uma oficial que venceu todas as barreiras em busca de um objetivo, servir e proteger a sociedade.

Como tudo começou

 

Tenente Raquel, ao lado de seu irmão que é policial militar do Estado da Paraíba

Em 2007, enquanto cursava o segundo período do bacharelado de enfermagem, Raquel ouviu falar de um amigo, sobre o que era o Curso de Formação de Oficiais, desde então, viu despertar o desejo de se tornar uma policial.

Com o passar dos anos, a paraibana terminou o curso superior de enfermagem e no mês seguinte, foi aprovada em um concurso público na cidade vizinha de sua terra natal, Quixaba.

Mesmo tendo conquistado a independência financeira, além de estar trabalhando em sua área de formação, Raquel permaneceu com o sonho de entrar em uma corporação militar. Seu estimulo maior, ocorreu durante a formatura de seu irmão, que estava prestes a se tornar um soldado da Polícia Militar da Paraíba. Encantada com a beleza da cerimônia, a jovem pensou “eu vou vestir essa farda” e decidiu que iria estudar e que não descansaria, até que adentrasse em um CFO.

Em sua primeira tentativa, não obteve êxito em um concurso paraibano. Na época, com 28 anos, ela refletiu que aquela era a hora de entrar numa corporação de Polícia Militar, pois a idade limite imposta nos editais poderia sanar qualquer chance da realização de seu sonho. Foi ai que Alagoas entrou em sua vida.

Em 2012, Raquel soube que a PM alagoana estaria abrindo concurso. Ao comentar o fato com seus pais, os senhores Robertano Florencio e Maria do Socorro, ambos a perguntou se ela teria perdido o juízo, pois não conhecia ninguém por aqui, e muito menos já tinha visitado o território alagoano. Nada disso impediu que a paraibana fizesse a prova e fosse aprovada em todas as etapas do certame.

No dia 21 de julho de 2013, faltando uma semana para começar o CFO, Raquel se machucou enquanto jogava Handebol. A futura cadete pulou para receber uma bola, porém, caiu de mau jeito e acabou quebrando o pé direito.

Mesmo com a lesão, a jovem partiu para Maceió, sozinha e com a perna engessada. Incapaz de carregar suas caixas e malas, Raquel teve que pedir ajuda a algumas pessoas. Ainda na rodoviária, sentia o tamanho da dificuldade que iria enfrentar quando chegasse ao solo alagoano.

 

A militar superou inúmeros desafios para conseguir concluir o CFO

A cadete do pé quebrado

Raquel se apresentou a Polícia Militar de Alagoas em agosto de 2013. A paraibana não sabia qual era o enxoval necessário para iniciar o Curso de Formação de Oficiais, muito menos possuía conhecimento sobre como era a vida militar.

"Cheguei com o meu pé naquele estado e sem ter plano de saúde. Precisava de lençóis, forrava minha cama com o que eu tinha e ia dormir no chão. Era necessário adquirir roupas extras, e eu não tinha a quem pedir, pois não podíamos sair para comprar", relatava a hoje tenente.

Sem segurar a emoção, a oficial se diz muito grata pelo apoio recebido de seus companheiros durante esses primeiros momentos na Academia.

"Se pra quem é daqui, tendo todo apoio da família, o curso é difícil, imagine pra quem estava totalmente sozinha. A turma foi essencial para mim, ela via minha dificuldade e me ajudava. Passava por todos os problemas sem poder desabafar com meus familiares, pois sabia que se eles soubessem do que eu estava passando aqui, viriam me buscar, então tudo que eu sentia falava para meus companheiros, eles diziam que eu era louca (risos), que não iria valer a pena tanto sacrifício", afirmava Raquel.

Mesmo com a lesão que tinha em seu pé, a paraibana não recebeu nenhum tipo de privilégio, sendo necessário entrar em forma, assim como os outros, bem como realizar todas as tarefas no mesmo tempo que seus companheiros.

"Não foi fácil, nos dias de chuva eu colocava uma sacola para proteger o gesso. Aprendi a correr de muletas, tinha que trocar meu uniforme em três minutos, minhas amigas me viam nesta situação e não podiam fazer nada, pois o tempo mal dava para elas se trocarem, não conseguia se quer tomar banho e me alimentar sozinha, sempre era necessário alguém levar meu prato até a mesa", disse a paraibana.

Passado o período de quarentena, Raquel viu todos os seus companheiros de curso irem aproveitar suas folgas em casa. Como não tinha parentes em Maceió, e muito menos condições financeiras para se manter sozinha, teve que morar no quartel por um bom tempo. Com o passar dos dias, ficou conhecida por todos como a "Cadete do Pé Quebrado".

O capitão Thiago Duarte, ex-comandante do pelotão de Raquel, citou a perseverança e determinação que marcou a passagem da paraibana pela Academia de Polícia Militar Senador Arnon de Mello.

"Mesmo com o pé quebrado, ela demonstrou uma enorme dedicação, comprovando que poderia mesmo com essa lesão, terminar o curso. No início, todos os cadetes passam por um período de adaptação, o dela foi igual ao dos outros, se surgia alguma atividade que seu pé o impossibilitasse de fazer, a gente criava outra similar. Raquel concluiu o curso por méritos e sem precisar da ajuda de ninguém", garantiu o capitão.

A incrível coincidência

 

 

 

Já morando sozinha e estabilizada em Maceió, Raquel decidiu trazer sua motocicleta da Paraíba. Justamente no dia 21 de julho de 2015, há exatos dois anos após quebrar o pé pela primeira vez, a jovem se envolveu em um acidente, onde retornou a lesionar seu pé direito. Mais uma vez, a oficial teve que precisar do apoio de seus amigos.

"Graças a Deus, mais uma vez, meus companheiros foram pais e mães para mim. Foram muitas lágrimas, mas eu estava ali porque aquele era meu sonho. Todo esse tempo foi muito gratificante. A vitória tem um sabor diferente quando a gente realmente derrama o suor. Sei o quanto foi duro chegar onde estou, por isso amo minha profissão e sinto um orgulho imenso toda vez que visto esta farda", garantiu a paraibana.

Após vencer todas as barreiras, Raquel se formou em dezembro de 2015, desde então serve ao 2º BPM. A militar possuí o sonho de alcançar o último posto da corporação, além de comandar uma unidade operacional. Ela deseja que a Corporação seja cada vez mais reconhecida pela sociedade, como também, possa oferecer melhores condições de trabalho, como escalonamento de salário, promoções, e melhorias nos equipamentos, principalmente nos femininos.

Em relação ao Dia Internacional da Mulher, a policial assumiu que se sentia entristecida quando era discriminada pelo fato de ser mulher, inclusive, sua monografia no CFO foi sobre o preconceito que as fens passavam durante o curso.

"Por diversas vezes eu ouvia que fem não prestava, que fem era uma desgraça, e eu não via desta forma. Sei que existe a diferença física, mas nada que a gente também não possa fazer, pois com técnica e conhecimento, conseguimos se equiparar aos homens. Não se deve impor limites as mulheres que buscam evoluir, assim como os homens, cada mulher tem seu perfil, algumas são mais operacionais, já outras são mais pro administrativo, existe espaço pra todo mundo. Não é por que sou mulher, que irei render a menos que meu companheiro", desabafou Raquel.

Ao equiparar os preconceitos entre civis e militares, para a oficial, a maior discriminação está dentro do próprio ambiente militar.

"Os civis nos admiram mais, acreditam mais em nós, enquanto que os militares ficam repetindo que somos incapazes. Quando tenho a oportunidade de comandar, tento dar o meu melhor, penso como tropa, o que todos precisam e o que tá ao meu alcance como instituição. Nas ruas, durante uma abordagem, tento demonstrar o máximo de conhecimento, para que a população perceba que é através disto que a nossa capacidade deve ser medida, e não achar que posso menos pelo simples fato de ser mulher", explicou Raquel.

Ao ser perguntada se ela recomendaria a vida militar para outras mulheres, a paraibana afirmou que sim.

"Recomendo este mundo para todas as mulheres, fico chamando minhas primas para prestar os concursos, digo a elas que não existe profissão melhor que a nossa. Caso um dia eu faça algo diferente, teria que ser na área de segurança pública. Não vou dizer que na Polícia Militar a gente só encontra flores, existem muitas situações que achamos injustas, mas, por ser tão apegada a esta profissão, consigo encontrar uma válvula de escape para não me desmotivar, muito menos pensar em deixar este emprego. Espero que este amor nunca diminua", finalizou a tenente.

Portalpatos

Com Roberta Morais

portalpatos
Leia Também

Comentários