portalpatos
publicidade
domingo, 22 de setembro de 2019

Volkswagen anuncia novo modelo no Brasil, mas sem investimento novo nem vagas de emprego


Na manhã desta quinta, Doria disse esperar investimento de ao menos R$ 1 bilhão, com a criação de pelo menos 2.000 empregos, entre diretos e indiretos.

WOLFSBURG, ALEMANHA (FOLHAPRESS) - O governador de São Paulo, João Doria, viu frustrada nesta quinta-feira (29) a expectativa de um anúncio de novos investimentos e vagas de empresas no estado de São Paulo.

Na manhã desta quinta, Doria disse esperar investimento de ao menos R$ 1 bilhão, com a criação de pelo menos 2.000 empregos, entre diretos e indiretos.

À tarde, em Wolfsburg, no entanto, a Volkswagen anunciou apenas a "aceleração" de parte dos investimentos já previstos, em 2016, para o quinquênio.

Dos R$ 7 bilhões projetados há 3 anos, serão destinados no ano que vem R$ 2,4 bilhões para as unidades de São Bernardo do Campo e de São Carlos.

A maior parte irá para a unidade de São Bernardo, que deve produzir um novo carro, com lançamento é previsto para o próximo ano.

Não foram anunciadas novas vagas de emprego pela montadora. Segundo a Volks, para reforçar o desenvolvimento de novos produtos foram contratados 100 pessoas. No total, incluindo as linhas de montagem, houve 500 novas vagas a partir de 2018.

O governador afirmou que o investimento vai criar cerca de 1.500 em toda a cadeia produtiva. Segundo ele, a montadora ainda tem novos planos para o estado. "Como o setor é muito competitivo, a divulgação precisa ser cuidadosa."

A novidade do anúncio desta quinta foi o novo carro, 100% desenvolvido no Brasil. Pela primeira vez na história da montadora no país, um carro com desenvolvimento nacional será fabricado também na Europa, em Pamplona (Espanha).

O veículo, um modelo compacto que recebeu o apelido de "New Urban Coupé", foi anunciado pelo chefe de produção global da Volkswagen, Ralf Brandstatter, e pelo CEO da Volkswagen na América Latina, Pablo di Si, na sede internacional do grupo, em Wolfsburg (Allemanha).

Em ambos os discursos, os dois falaram em "reforçar" a disposição de investir.
Di Si afirmou que investimentos olham o médio e o longo prazo e são reavaliados a todo momento, principalmente numa região em que a volatilidade econômica é alta.

"Com todas as dificuldades que temos, reafirmarmos e confirmarmos o investimento não é pouca coisa."

Brandstatter também falou em parceria de longo prazo com o país e disse que pretende investir "durante vários ciclos de produção no futuro".

O secretário de Fazenda e Desenvolvimento, Henrique Meirelles, afirmou que o anúncio marcou uma nova fase para a história brasileira: "São Paulo se consolida como um centro formal de desenvolvimento tecnológico, com pesquisas e desenho de novos produtos".

Segundo o secretário, essa iniciativa pode elevar a qualificação dos empregos e os salários. "Não basta só ter mais emprego, é preciso ter uma melhoria de patamar."
Outro fator relevante, segundo ele, é a formação de confiança. "O investimento depende de reformas, que começaram a ser feitas no governo anterior" (do qual Meirelles foi Ministro da Fazenda).

Mas, principalmente, segundo ele, "a demonstração de decisões rápidas e com segurança para o futuro", como as demonstradas pelo governador João Doria.
Sem novos investimentos ou vagas de emprego, a montadora pode não se qualificar para o programa IncentivAuto, lançado pelo governo João Doria (PSDB-SP) em março, como reação à ameaça da GM de encerrar suas operações em São José dos Campos e em São Caetano e transferir a produção para outro país.

O programa do governo paulista dá descontos progressivos no ICMS a investimentos novos, que superarem R$ 1 bilhão e gerarem ao menos 400 empregos. Segundo o secretário estadual da Fazenda e do Planejamento, Henrique Meirelles, o abatimento vai de 2,7% a 25% (para investimentos acima de R$ 10 bilhões.

Doria, no entanto, mencionou o programa de incentivos em seu discurso na sede da Volks, com a possibilidade de novos anúncios por parte da montadora. Segundo ele, não se trata de guerra fiscal, uma vez que o estado não compete com outras unidades federativas do Brasil e, sim, com o mundo.

O governador também disse que está implantando nas escolas técnicas e faculdades técnicas estaduais o modelo alemão, no qual há conexão entre as necessidades concretas da indústria e a formação da mão de obra.

Desde que o IncentivAuto foi anunciado, a Volks já é a terceira empresa a divulgar investimentos no Estado, e espera-se movimento semelhante da Toyota.

A própria GM prometeu R$ 10 bilhões até 2024 nas fábricas de São José dos Campos (interior de São Paulo) e de São Caetano do Sul (Grande SP), em novos produtos e tecnologia.

Em maio, a Scania anunciou R$ 1,4 bilhão na modernização da fábrica de caminhões de São Bernardo do Campo (SP) para o período de 2021 a 2024 e na atualização de tecnologias e projetos relacionados a combustíveis alternativos.

O governo também estuda uma forma de usar o IncentivAuto em outra crise do setor automobilística, o fechamento neste ano da unidade de São Bernardo do Campo da Ford, que fabrica o Fiesta e, majoritariamente, caminhões.

A decisão foi tomada em fevereiro pela companhia americana, que pretende deixar de produzir os veículos de carga. A unidade 3.000 trabalhadores diretos e 1.500 terceirizados.

A solução negociada por Doria passa pela venda da unidade a outra empresa automobilística, mas a operação tem esbarrado na indefinição sobre incentivos tributários nesse caso.

Doria preferiu não falar da Ford durante o evento na montadora concorrente.
Representantes da Caoa, que pertence ao empresário Carlos Alberto de Oliveira Andrade, estiveram em abril na Secretaria de Fazenda e Planejamento paulista, pedindo descontos tributários em troca de preservar os empregos.

Meirelles, porém, que tem negado em entrevistas e artigo na Folha que o IncentivAuto seja guerra fiscal, quer que o programa seja aprovado apenas para novos investimentos.

Apesar do programa de incentivos, porém, presidentes de montadoras disseram em evento recente do setor que o Brasil é hoje pouco atrativo para as matrizes, por não acompanhar tendências tecnológicas como veículos autônomos, eletrificados ou compartilhados, que requerem investimento alto das corporações.

O presidente da Mercedes-Benz do Brasil, Philipp Schiemer, chegou a afirmar que o dinheiro está escasso e só será investido em países competitivos.

"O Brasil está perdendo o trem do futuro e isso me preocupa."

A falta de atratividade do Brasil passa também por incerteza política, econômica e jurídica, além dos tradicionais custos tributários, trabalhista e burocrático.

Em julho, a exportação de veículos brasileiros teve um respiro em julho com vendas para a Colômbia e o México, segundo a Anfavea (associação das montadoras).

O resultado, porém, não compensou a queda provocada pela crise na Argentina, que deve se agravar com a renegociação de dívida anunciada ontem, segundo analistas do setor automotivo.

Portalpatos

Fonte: FolhaPress

Por Ana Estela de Sousa Pinto

portalpatos

Leia Também

Comentários