Álbum atual tem 20 figurinhas, que devem ser impressas em papel adesivo e recortadas 16 para mães e avós e quatro para fotos históricas das marchas
Quando decidiu criar um álbum de figurinhas em homenagem às Mães e Avós da Praça de Maio, Ariel Cuadra pretendia fomentar encontros e conversas por meio do item, mantendo vivas as causas dos grupos fundados em 1977 por mulheres que buscavam desaparecidos na ditadura argentina (1976-1983).
Ele não esperava, no entanto, que esse propósito seria alcançado em sua própria família.
“Aconteceu algo anedótico, eu diria”, afirma ele. “Com toda a comoção após o lançamento, meu pai se sentou à mesa comigo e com a minha mãe e contou sobre um parente que foi detido e desapareceu.”
O parente em questão é Roberto Castillo, um trabalhador e membro da Juventude Peronista de 40 anos levado de sua casa em Almirante Brown, na região metropolitana de Buenos Aires, na noite de 12 de janeiro de 1977. Ele é tio-avô de Cuadra, irmão de sua avó paterna.
“Um grupo de soldados armados chegou, bateu à porta e encontrou meu pai, minha mãe, eu e três dos meus irmãos”, contou Martín, filho de Castillo, em um documento da Comissão pela Memória. Após revistar a casa e não encontrar nada, os militares se dirigiram ao vizinho, onde morava um ativista.
Ali, continua, alguém mencionou o sobrenome Castillo, e então os soldados voltaram desta vez, sem bater na porta. “Eles a arrombaram. Nossa buldogue, Niki, agarrou a bota do policial e a mordeu, e ele atirou nela com sua espingarda”, conta Martín, que tinha 8 anos na época.
“Eu vi eles quebrando coisas, virando colchões de cabeça para baixo, revirando a cozinha. Foi horrível vê-los destruir nossa casa. Lembro que meu pai estava calmo, usando bermuda e chinelos, com uma jaqueta vermelha. Eles o algemaram com aquela jaqueta vermelha e o levaram embora”, conta, ainda segundo o documento.
A promessa era que ele seria liberado em 24 horas, mas a família nunca mais o viu. Apenas em 2009 seus restos mortais, enterrados sem identificação no Cemitério de Avellaneda, a cerca de 15km de sua casa, foram exumados e identificados. Desde 2012, seu nome batiza uma rua em Almirante Brown.
“Foi a partir da criação deste álbum que começamos a construir nossa própria história familiar”, afirma Cuadra. “Imagino que isso também possa acontecer em outras famílias ou comunidades, e era essa a intenção também.”
Cuadra conta que teve a ideia do projeto em meados de abril, ao observar todo o furor que esse tipo de item causa em tempos de Copa do Mundo, especialmente entre adolescentes e crianças. Foi dos professores, aliás, que o artista gráfico teve os retornos mais entusiasmados.
“Tenho recebido mensagens de agradecimento de educadores de todo o país. Eles planejam usar o álbum para desenvolver atividades relacionadas aos direitos humanos, à memória, à verdade e à justiça todas essas lutas que as próprias mães e avós encarnaram”, afirma Cuadra.
O uso da estética do álbum de figurinha para chamar a atenção para causas já foi usado em outras copas. Em 2022, a ONG SP Invisível colou lambe-lambes de pessoas em situação de rua pelos muros de São Paulo. Mais recentemente, familiares de pessoas desaparecidas no México, um dos países-sede do torneio deste ano, produziram cartazes de busca em formato de figurinhas.
Talvez tenha sido involuntário, mas as Mães e Avós da Praça de Maio são um caso de sucesso desse tipo de comunicação visual. O lenço branco que as identifica é praticamente um símbolo nacional, encontrado em ímãs e quadros em feiras de rua, em estampas de camisetas e nos muros da cidade.
O item começa a ser utilizado como uma referência às fraldas de pano de seus filhos e netos, e também para que elas identificassem uma a outra em um contexto de clandestinidade antes de adotar a peça que se tornaria famosa, as ativistas usavam um prego preso à lapela do casaco.
A princípio, os encontros ocorriam nos bancos da Praça de Maio, mas um dia a polícia as expulsou do local sob o argumento de que o estado de sítio não permitia reuniões em público. Elas, então, começaram a circular pela praça de braços dados em grupos de duas ou três.
A tradição nunca parou, com exceção do período da pandemia. Desde 30 de abril de 1977, elas marcham pela praça todas as quintas-feiras, às 15h30, acompanhada de ativistas em março deste ano, completaram a ronda número 2.500.
“A Argentina abraça esse símbolo do lenço e se apropria dele”, afirma Cuadro. “Pode-se dizer que é um idioma universal, porque é possível reconhecer sem precisar entender qualquer palavra e até mesmo sem conseguir ler.”
Além das Mães e Avós da Praça de Maio, duas fundações distintas, desde 1995 existe um grupo que reúne os filhos dos desaparecidos e, desde 2019, outro que reúne os netos. Foram os Hijos (sigla em espanhol para Filhos e Filhas pela Identidade e pela Justiça e contra o Esquecimento e o Silêncio) que apoiaram o lançamento do álbum, disponível gratuitamente em PDF para ser impresso.
“Achamos ótimo ter uma desculpa tão popular e massiva como a Copa do Mundo para continuar contando a história da luta das mães e avós”, afirma Giselle Tepper, integrante dos Hijos. “Estamos trabalhando em um projeto para talvez expandi-lo digitalmente e incluir mais mulheres.”
O álbum atual tem 20 figurinhas, que devem ser impressas em papel adesivo e recortadas 16 para mães e avós e quatro para fotos históricas das marchas. A parte inferior dos retratos mostra os nomes de seus filhos ou netos e indicam se elas também foram sequestradas, se ainda estão “em luta” ou se já foram para a “eternidade”. O último é o caso de 11 delas.
No final de maio, a presidente das Avós da Praça de Maio, Estela de Carlotto, afirmou ao jornal Página 12 que há “um acompanhamento fantástico na instituição com os netos, que agora são os sábios que sabem o que precisa ser feito”. “Eu já estou muito idosa. Já estou praticamente me despedindo da vida”, disse a ativista de 95 anos. “É preciso continuar buscando os que faltam.”
Portalpatos
Fonte: Folhapress