Na semana passada, a Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica) emitiu um alerta para operadores de hidrelétricas na região Sul do país reforçarem a segurança para enfrentar a possibilidade de fortes chuvas no segundo semestre.
O alerta foi motivado pela grande probabilidade de ocorrência “do fenômeno El Niño de fortes proporções”, afirmou a agência reguladora. “Faz-se necessária a tomada de ações preventivas para identificar e mitigar fatores de risco”, diz o texto.
A possibilidade de fortes chuvas na região Sul é apenas um dos tipos de impacto que o El Niño pode ter no setor elétrico brasileiro, segundo especialistas. Aumento do uso de usinas térmicas (e da conta de luz) e cortes de fornecimento por incêndios e fortes ventos são outros.
“No setor de energia, as temperaturas mais altas tendem a elevar o consumo de eletricidade, especialmente por conta do uso de aparelhos de refrigeração”, afirmou o Climatempo, em nota distribuída nesta segunda-feira (15).
“Ao mesmo tempo, a irregularidade das chuvas pode afetar reservatórios e exigir planejamento mais cuidadoso do sistema elétrico. Há ainda o risco de atraso no início do período úmido no Sudeste e Centro-Oeste, regiões que concentram cerca de 70% da produção hidrelétrica.”
O início do El Niño foi confirmado na quinta-feira (11) pela Noaa (Administração Nacional Oceânica e Atmosférica) dos Estados Unidos. A entidade estima que a chance de um fenômeno de alta intensidade entre setembro e janeiro é de 63%.
“O El Niño se caracteriza por intensificação de chuvas no Sul e por seca no restante do país”, diz o ex-diretor-geral do ONS (Opera dor Nacional do Sistema Elétrico), Luiz Eduardo Barata. “Como nossos reservatórios estão no Sudeste e Nordeste, ele reduz a energia armazenada”.
Hidrelétricas das regiões Sudeste e Centro-Oeste respondem por cerca de dois terços da capacidade de armazenar energia do país. Os reservatórios dessas regiões estão hoje a 66% da capacidade máxima, o pior patamar para essa época desde a crise energética de 2021.
O Brasil hoje enfrenta excesso de energia durante o dia, mas pode precisar de eletricidade extra no início da noite, principalmente se a previsão de ondas de calor se confirmar. Nesse caso, o uso de térmicas tende a ser intensificado.
As térmicas são pagas pelo consumidor comum com as bandeiras tarifárias cobradas na conta de luz. “A probabilidade de bandeira vermelha é maior a partir de agosto”, diz Victor Hugo Iocca, diretor de Energia Elétrica da Abrace (Associação dos Grandes Consumidores de Energia e Consumidores Livre).
A bandeira vermelha patamar 1 cobra R$ 4,46 por cada 100 kWh (quilowatts-hora). A patamar 2 cobra R$ 7,87. Atualmente, o consumidor paga a bandeira amarela, de R$ 1,88 a cada 100 kWh consumidos.
A combinação de estiagem severa com elevação do consumo pode jogar custo de térmicas também para 2027, quando as distribuidoras de eletricidade discutirem reajuste anual da tarifa com a Aneel.
E pode também demandar mais uso de térmicas no próximo ano, caso o estoque de água nos reservatórios das hidrelétricas não seja reposto no período chuvoso, que começa por volta de setembro e vai até março do ano seguinte.
Iocca diz que o governo deveria avaliar medidas para reduzir o uso de térmicas no início da noite, como o horário de verão e um programa de resposta da demanda, no qual grandes empresas são pagas para reduzir o uso de eletricidade em horários críticos.
O ex-diretor da Aneel e da ANA (Agência Nacional de Águas) Jerson Kelman acrescenta que o setor precisa de adaptação a eventos extremos, intensificados pela combinação El Niño e mudança climática, como tempestades e incêndios. Ele prefere cautela, entretanto, em relação a possíveis impactos do El Niño, sendo necessário monitorar o avanço de eventos extremos.
Ele destaca que a situação brasileira é melhor agora do que na última crise. “Diferente de 2001, hoje temos exército de placas solares e eólicas”, diz. “Para que esse exército possa mitigar a possibilidade de problema energético, é preciso que hidrelétricas possam deixar de funcionar ou funcionar pouco nas horas em que tem sol ou vento.”
Essa solução dependeria de ajustes com outros usuários da água, como prefeituras, indústrias e agronegócio. Em situações extremas, ANA e ONS já negociam esquemas operacionais mais restritivos em hidrelétricas.
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Fonte: Folhapress
Por: Nicola Pamplona