07/11/2026
O que pode estar em risco ao Brasil com a crise no Paraguai O que pode estar em risco ao Brasil com a crise no Paraguai
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Paraguai passa por uma crise política e econômica após o suspensão do Banco Ueno, uma das principais instituições financeiras do país

Com quase 200 anos de relações diplomáticas, mais de mil quilômetros de fronteiras compartilhadas e parceria na gestão de uma das maiores usinas hidrelétricas do mundo, a crise no Paraguai acende um sinal de alerta no governo brasileiro, que acompanha de perto a situação no país vizinho.

Assunção passa por uma crise política e econômica após a suspensão do Banco Ueno, uma das principais instituições financeiras do país. A crise no banco levou à renúncia do presidente e dirigentes do Banco Central do Paraguai (BCP), e ao impeachment e prisão do presidente do país, Santiago Peña.

Para a diplomacia brasileira, que preza pela integração regional, a estabilidade na América do Sul é considerado um tema estratégico. A avaliação é que a situação atual no Paraguai tem potencial de atingir interesses brasileiros e comprometer mecanismos de integração dos quais o Brasil é um dos principais articuladores.

Embora ainda não exista indícios de que a situação no Paraguai atinja o Brasil diretamente, os desdobramentos do caso são acompanhados de perto pelo Planalto e Itamaraty, que temem o risco de que a crise no país possa gerar uma instabilidade regional. Os dois países gerem ainda a Hidrelétrica de Itaipu e são parceiros no Mercosul, o que aprofunda o laço das duas nações.

Crise no Paraguai
  • O Paraguai enfrenta uma crise política e financeira desde a suspensão das operações so Banco Ueno, determinando pelo Banco Central do Paraguai (BCP) após a identificação de problemas de liquidez na instituição financeira.
  • O Ministério Público abriu uma investigação e ao menos oito pessoas ligadas ao grupo gestor do banco foram presas.
  • A crise também atingiu a cúpula do Banco Central: o presidente e dois diretores renunciaram aos respectivos cargos. O presidente do BCP, antes de ser indicado ao cargo, dirigia o Banco Ueno.
  • A República paraguaia também foi afetada com o escândalo e o presidente do país, Santiago Peña, sofreu um impeachment em meio às acusações e suspeitas de envolvimento com a crise no Banco Ueno – Peña foi acionista do grupo gestor do banco nos dois primeiros anos de seu mandato.
  • O presidente tentou antecipar ao impeachment e renunciar ao cargo, em uma tentativa de manter o foro privilegiado e um cargo de senador vitalício, mas a renúncia foi rejeitada pelo Congresso.
  • Peña foi preso na noite de sexta-feira (6/11). Ele estava em casa, na capital Assunção, e foi detido pela Polícia Nacional.
Instabilidade regional

Brasil e Paraguai têm uma relação profunda. Os dois países são membros fundadores do Mercosul e responsáveis por gerir a Usina Hidrelétrica de Itaipu, um dos principais meios de conexão entre Brasília e Assunção. Paraguai comporta ainda uma das maiores comunidades brasileiras no exterior, com mais de 250 mil brasileiros que residem no país.

Os laços entre Brasil e Paraguai fazem com que uma crise de qualquer natureza no país vizinho não fique restrita às suas fronteiras. Neste sentido, a depender da dimensão e da duração dos problemas, os efeitos podem alcançar o Brasil, afetar interesses de empresas brasileiras e comprometer projetos de integração regional.

Considerado um dos principais organismos de integração econômica do Cone Sul, uma crise prolongada em Assunção pode dificultar negociações dentro do bloco, afetar a confiança entre os governos e criar obstáculos à coordenação de políticas comerciais e de infraestrutura — um tema que é caro para o Brasil, sobretudo para a gestão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Em uma América do Sul que já enfrenta dificuldades de articulação, a instabilidade em mais um dos países pode ampliar as incertezas sobre a capacidade de cooperação regional. Com isso, o professor e cientista político Rogerio Pereira de Campos avalia que pode acabar voltando para o Brasil a necessidade de impor a normalização à região.

“Pode caber ao Brasil, como o grande país e maior economia da região, tentar equilibrar as coisas, porque a balança negativa, seja ela política ou econômica, não é saudável e pode ter um impacto ruim para o Brasil também”, avalia Campos.

Apesar disso, o governo brasileiro trata o tema com cautela. Respeitando a soberania paraguaia, membros do Planalto e do Itamaraty veem a crise no país como um assunto interno de Assunção, embora observem atentamente os desdobramentos do caso. O Brasil presa ainda que o país passe para um transição de governo tranquila após o impeachment de Santiago Peña.

Na noite dessa sexta, o presidente Lula desejou êxito ao novo presidente do Paraguai, Pedro Alliana, que assumiu o comando do país após o impeachment de Santiago Peña.

Em mensagem publicada nas redes sociais, Lula manifestou interesse em manter uma relação de cooperação com o novo governo e fortalecer os laços entre os dois países. Alliana era vice de Peña.

“Transmito ao novo Presidente do Paraguai, Pedro Alliana, empossado na noite de hoje, meus desejos de pleno êxito nas novas funções e de poder trabalhar com ele de maneira aberta, franca e cooperativa, em prol do fortalecimento da relação bilateral e do avanço da integração na América do Sul”, escreveu o presidente brasileiro.

O petista também afirmou que espera receber Alliana em Brasília para discutir os interesses comuns entre os países e dar novo impulso à relação diplomática.

“Espero poder recebê-lo proximamente em Brasília, oportunidade em que poderemos examinar a nossa agenda bilateral e dar renovado impulso a nossos históricos laços de amizade”, acrescentou.

Itaipu

Mesmo com a crise no país vizinho, que divide a gestão da terceira maior hidrelétrica do mundo, a Itaipu Binacional afirmou que o escândalo não deve afetar a operação brasileira.

“A Itaipu Binacional esclarece que não há recursos financeiros sob gestão da margem brasileira depositados ou aplicados no Ueno Bank”, afirmou a empresa. “As aplicações financeiras da Entidade seguem normas e procedimentos internos, observando critérios de segurança, liquidez e rentabilidade, e sua gestão observa as competências estabelecidas para cada margem. A operação da Itaipu segue normalmente, sem impacto na produção e no fornecimento de energia”.

 

Inaugurada em 1982, a Usina Hidrelétrica de Itaipu é uma parceria do Brasil e Paraguai, que construíram juntos a instalação no Rio Paraná, localizado na fronteira entre os dois países.

A empresa é dividida em partes iguais pelas duas nações, mas a gestão de cada um dos lados é independente.

Até o momento ainda não está claro como o escândalo bancário no Paraguai pode afetar a Itaipu Binacional.

O lado paraguaio, no entanto, se viu envolvido na crise do Ueno Bank. A empresa faz parte da lista de instituições públicas do Paraguai que aplicaram fundos no banco, que fechou as portas nesta semana.

O valor total investido no banco ainda não é claro. Estimativas, contudo, apontam que a Itaipu Paraguai mantinha aproximadamente R$ 89,9 milhões no Ueno, aplicado pelo fundo de pensão da empresa. Isso acabou colocando em risco os recursos de aposentados da margem paraguaia da hidrelétrica. 

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Fonte: Metrópoles

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