Estruturas que armazenam gordura dentro das células podem desempenhar um papel muito mais importante do que se imaginava. Um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade La Trobe, na Austrália, mostra que essas pequenas reservas ajudam o organismo a identificar infecções virais e a ativar rapidamente a resposta do sistema imunológico.
Os resultados, publicados na revista Nature Communications em 5 de junho, indicam que essas estruturas, chamadas de gotículas lipídicas, podem ajudar no desenvolvimento de novos antivirais que reforçam as defesas naturais do organismo, em vez de atacar diretamente os vírus.
“A pesquisa demonstra que elas são centros de controle vitais e ativos para nos defender contra vírus”, afirma a professora Karla Helbig, uma das responsáveis pelo estudo, em comunicado.
Como a gordura ajuda a combater vírusAs gotículas lipídicas são pequenas estruturas presentes no interior das células e, até pouco tempo atrás, eram vistas apenas como depósitos de gordura. O novo estudo mostra que elas também participam da defesa do organismo logo nos primeiros momentos de uma infecção.
Durante os experimentos, os pesquisadores observaram que, ao detectar um vírus, essas estruturas mudam sua composição e passam a concentrar determinados ácidos graxos e proteínas ligadas ao sistema imunológico, criando um ambiente que dificulta a multiplicação do vírus e favorece a produção de moléculas antivirais.
Em testes com gotículas lipídicas produzidas em laboratório, a inclusão de dois ácidos graxos específicos, o ácido araquidônico e o ácido eicosapentaenoico, reduziu a replicação viral e aumentou a produção de interferons — proteínas fundamentais para a resposta do sistema imunológico.
“Em vez de atacar os próprios vírus, o que muitas vezes leva à resistência aos medicamentos, esta pesquisa aponta maneiras de fortalecer o mecanismo antiviral do próprio corpo”, explica.
O que a descoberta pode representarOs pesquisadores acreditam que esse mecanismo poderá ajudar no desenvolvimento de medicamentos capazes de agir contra diferentes vírus, sem depender das características de um único agente infeccioso. “Ao manipular gotículas lipídicas ou administrar gorduras antivirais específicas, pode ser possível desenvolver antivirais que funcionem contra muitos tipos diferentes de vírus”, afirma Helbig.
Para Ebony Monson, coautora do estudo, a descoberta também pode contribuir para melhorar a preparação diante de futuras pandemias.
“Dependemos, em grande parte, das vacinas, mas elas levam tempo para ser desenvolvidas e protegem contra vírus específicos. Como os vírus sofrem mutações rapidamente, essa proteção pode diminuir com o tempo”, diz.
Segundo a pesquisadora, estimular uma via de defesa já existente no organismo pode tornar a resposta mais rápida diante do surgimento de novos vírus. “Esperamos que nossa pesquisa contribua para respostas mais rápidas e resilientes a ameaças virais emergentes e melhore significativamente a preparação global para pandemias”, conclui.
Portalpatos
Fonte: Metrópoles